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A lágrima

Quisera ser como as gotas humanas que nascem de um pequeno soluço incontido. Felizes as que marejam instantâneas, que caem fugazes dos olhos para o nada. Felizes as que saem, breves, volumosas, intempestivas, derramadas ao rosto num último caminho como parte de um todo. Felizes as que caem intocadas e percorrem a alegria ou a tristeza como um símbolo de vitória ou fracasso. Tornam-se célebres, descem perfeitas, brilhantes e cristalinas mas nem sempre carregam verdade.
Felizes as que conseguem sair, em livre trânsito com a alma do mundo, onde a beleza é contagiante. Doces matizes de sonho e realidade, sensibilidade e perfume de rosas tão exato que se possa tocar. Encanto de pétalas que se fundem depois da chuva, gotas miúdas que reinam sobranceiras e hemisféricas sobre o carmim como as lágrimas que se estancam do alto do corpo para o último adeus.
E pulam as ligeiras, num piscar úmido de olhos. Pulam dos corações fartos, que vêem rosa da vida. Pulam da fineza da garoa, da poesia à boca solta, da estrofe espontânea, do verso sem sentido, do poeta que o mundo toca. Pulam da volta por cima, da vergonha na cara, do silêncio, da solidão acompanhada. Pulam das pazes, do encontro, da mágoa ardida, do sonho acabado, da dor da partida. Pulam da glória ou da queda, do trágico; mas sobretudo da pureza. E pulam da escassez ou da abastança, mas pulam apenas dos olhos de quem as deixam brotar.

A luz no fim do túnel

Nasce, broto, chispa de luz. Fadas e anjos te cerquem com rosas e estrelas, perfume e brilho de vida. Vê os seus condões, contempla as suas asas e voa a inocência enquanto a consciência não te tome de assalto. Riam seus olhos claros, faróis do berço onde te cercas de mimo e prisão. Rola, engatinha, caia para os lados onde o chão ainda é fofo e se espante que ainda hão de te alentar. Dorme silente em regalo que num pouco intervalo tu te acordas gritando. Tens medo de nada mas à porta parada tu tens aconchego.
Vai, menino, teu céu te acompanha, teu brilho já quase cintila, teu frescor sobrevive ainda que teimes em crescer. Vai, menino, chuta essa bola, rala os joelhos e não chora, cai e levanta por que há males maiores. Sangra e assopra e arde com os homens. Suspira baixinho e sozinho com os anjos que você ainda vê.
Aprende, criança, que a vida é uma escola. Leva a lancheira, não esqueça o horário, partilha o que é seu mas não queira o dos outros. Dê mas não pegue e não se rebele que é um tanto pior. Queime por dentro e conhece o castigo, que virá mesmo quando culpa não tiveres. Aprende imundície já cedo que o mundo não é belo e guarda um facho da tua verdade bem escondido no teu coração. Despeça-se das fadas e do aroma das flores que só as virá nos seus sonhos e só o sentirás no fundo do poço.
Contrarie, rapaz, que ao jovem tudo é permitido. Vá em frente, experimente, que erros e acertos moram no tentar. Despenques mas se levante, por que lá embaixo tu pareces pequeno e já nem todos virão te embalar. Nem te digo cuidado, por que longe de mim tu és mesmo você. Vai, rapaz, projeto de homem, teu brilho alumia conforme te entregas. Vai que é mesmo difícil, tu bates à porta mas te batem de volta. Vai perder a singeleza, vai por aí, doer para vencer.
Não tripudies, homem, que tu morres também. Não queiras te esquecer, que a tua alma toma nota. Mas tripudiaste, homem, e agora pagas caro o sabor da tua derrota. Desespera-te e padece e te arrepende com os homens de mal. Suspira baixinho e sozinho com os anjos que ainda te acompanham. E abres o facho que bem guardaste bem dentro de ti que ainda verás a tua luz. A luz no fim do túnel.