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A boa memória

Para aqueles que estão sempre reclamando que a memória vive falhando, aqui vai a indicação de um dos livros mais lindos que eu já li até hoje. Trata-se de muito mais do que simples conselhos: diz-nos como somos desatentos, preguiçosos, levianos, como erramos nas nossas apreciações e observamos muito menos do que deveríamos o universo de coisas que acontecem ao nosso redor. Um livro que rendeu muitos seguidores, das dicas preciosas, das técnicas que ele ensina, vistas e revistas em outros autores. Vale como aprendizado, como ferramenta de expansão e reflexão: sem a memória, não conseguiríamos falar, comer, andar, sentar, viver.
Do prefácio, de Bandeira Duarte: " A memória é uma Primavera de vida, que prolonga a mocidade, permitindo revivê-la ressussitando a emoção que outrora impressionou o nosso cérebro. Esse dom foi, em todos os tempos, objeto de numerosos estudos filosóficos tanto mais interessantes pelo fato de se apresentar em cada indivíduo sob um aspecto diferente. Mas, sendo a memória variável nas suas manifestações naturais, as apreciações interpretativas das lembranças falham na maioria das vezes quanto à unidade. Eis por que se dedicaram sempre à conquista da fixidez na evocação, quer dizer, à cultura de um método que permita adquirir a memória ou desenvolvê-la. Assim, concentraram seus esforços sobre o ensino da arte que consiste em separar os feitos dignos de recordação, ou para dizer melhor, de revivescência, da balbúrdia de adaptações fantasistas com que os historiógrafos mascaram tais fatos. Sob este ponto de vista, a antiga literatura hindu fornece preciosos documentos. O culto da memória foi observado poe esse povo muitos séculos antes da nossa era e muitos séculos depois do período védico, encontramos ainda Asoka Piyardini que, segundo ele próprio dizia, para observar o culto dfa memória, garantindo a sinceridade da lembrança, gravou seus ensinamentos numa pedra para que os fiéis de Brama pudessem evocar através das idades, as doutrinas autênticas professoradas pelos seus longínquos antepassados. Além dele, pelo século XII, Sankara, o continuador do sistema filosófico mais aproximado dessa época, escrevia estas linhas magníficas: 'a memória é uma fonte que vivifica e reconforta aqueles que sabem nela beber.'

Essas crianças...


"Essas crianças de hoje!" foi escrito pelo médico e dramaturgo Pedro Bloch em 1970. Se o tivesse feito 10 anos antes ou daqui há 10 anos, o resultado teria sido o mesmo: uma compilação da eterna pureza, espontaneidade e ingenuidade infantis, captada de histórias vividas e ouvidas das crianças. O autor de "Criança diz cada uma!" narra prodígios, frases, respostas divertidas, reações surpreendentes que encantam qualquer um. Encantou a mim particularmente, quando encontrei o livro jogado no Sebo do Messias, cheio de pérolas das mais maravilhosas e inesperadas. A leitura de "Essas crianças!" evoca o mais sublime dentro de nós mesmos, a época em que éramos livres de preocupações e tudo era tão simples como 'fechar a torneira do céu num dia de chuva'. Logo abaixo vão alguns trechos das frases encontradas no livro que, em razão de ter sido publicado há mais de 40 anos, deverá ser encontrado apenas em sebos - lojas físicas ou virtuais (há várias opções no site da Estante Virtual - www.estantevirtual.com.br). Um livro leve, gostoso, que nos arremessa tempo adentro: primeiro por que voltamos a ser crianças; depois, por que não vemos as horas passarem.
Definição
-Papai, hoje eu vi o metrô!
- Que nada, menino! Metrô onde? Você nem sabe o que isso é!
- Não sei, é? ... Metrô é um trem... que entrou pelo cano.
O terreno
-Franklin era deste tamanhinho assim, quando, diante de uma casa em demolição, apontou:
- Olha, pai. Estão fazendo um terreno!
Relâmpago
Diante do contínuo relampejar, Serginho observou:
- O céu está querendo acender mas não pode.
Essas crianças de hoje!
Beatriz, de três anos, acordou surpreendida por ter caído da cama e exclamou, de olhinhos arregalados:
- Vovô, a cama derramou eu!
Nestorzinho e o caminhão
Nestorzinho, vendo passar um daqueles caminhões que jogam água para lavar as ruas:
-Papai, olha a chuva passeando de caminhão!

A arte da prudência

"A arte da prudência", de Baltasar Gracián é minha primeira indicação de leitura. É uma compilação de 150 dos 300 aforismos publicados originalmente em 1647, na Espanha. São conselhos de um dos mais poderosos escritores do barroco espanhol, filósofo e jesuíta, admirado por grandes pensadores como La Rochefoucauld, Goethe, Schopenhauer, Voltaire. Seus textos são engenhosos, concisos e reflexivos e abordam a moral, a religião, a sociedade e a política com alta qualidade de pensamento e estilo. Viveu de 1601 a 1658 e publicou 8 livros, entre ele este "Oraculo Manual y Arte de Prudencia", "um manual que advoga, numa linha um tanto pessimista, a virtude da prudência e a prática do realismo na conduta e convivência em sociedade", segundo escreve José Mario Pereira. Abaixo reproduzo dois aforismos e aqui inauguro um espaço para instilar o exercício de meditação
Ser pessoa de conversa agradável e saborosa (Página 19)
'A munição das pessoas inteligentes é a erudição sedutora, ou seja, um saber prático de todas as coisas comuns, mais inclinado ao saboroso e elevado que o vulgar. É conveniente ter uma boa reserva de frases engenhosas e de comportamentos galantes, sabendo empregá-los no momento adequado, pois, às vezes, é melhor o conselho contido em uma piada que o mais precioso ensinamento. Para alguns, a arte de conversar e a sabedoria no trato social tem sido mais valiosas que todos os conhecimentos acadêmicos.'
Ser diligente e inteligente (Página 28)
'A diligência executa rapidamente o que a inteligência pensou com calma. A pressa é uma paixão de tolos: como não percebem o perigo, agem sem atenção. Os sábios, ao contrário, costumam pecar por serem lentos, pois a reflexão obriga a parar. Às vezes, o acerto de uma observação se perde pela negligência em agir. A presteza é a mãe do sucesso. Muito consegue quem não deixa nada para amanhã. Correr devagar é um lema precioso.'