Já há algum tempo tenho observado o algo mais que existe entre as pessoas muito queridas ou entre aqueles em que vigoram enormes afinidades. Como há muito mais mistérios entre o Céu e a Terra – dizia Shakespeare – do que pressupõe nossa vã filosofia, vou me atrever a palavrear, apenas a olhos nus, sobre duas belas fragrâncias que recendem das relações humanas: as perguntas e os convites.
Poucas coisas no mundo são mais encantadoras do que a afinidade. Os desconhecidos se encontram nos gestos, nos olhares, nos símbolos, nas simples palavras em comum. Os conhecidos se frequentam, estão sempre juntos, mesmo quando não estão. Perto ou longe, são as perguntas que os mantém entrelaçados: Como você está? O que você tem feito? Quando vamos nos encontrar? Não me admira que os convites sejam também perguntas.
Sem os convites não há encontros; sem encontros não há perguntas; e sem perguntas prevalecem o silêncio e o vazio.
As perguntas são mágicas: abrem portas, janelas e corações. Aproximam, afastam; intimidam, mas enternecem; confundem, mas alumiam. Não à toa a humanidade tenha se desenvolvido ao redor das perguntas. As perguntas são dádivas, são cores; e às vezes são cinzas. E são tão mais constantes, tenho reparado, quanto maior é o interesse. Transbordam entre os apaixonados de primeira vista e os convites – sobretudo os aceitos –, são grandes sinais de que algo está dando certo. Ao contrário, nada mais triste que o casal escondido sob o som ambiente, em que a letra das músicas fala mais do que eles.
As perguntas e os convites são como a água e o vento: além de estarem por toda parte, mantém a vida acontecendo. Estão sobre as mesas, estão nas crianças, nos curiosos, nas caminhadas, nas viagens, nas igrejas. Parece que não, mas perguntas inocentes desvendam grandes mistérios. Fico surpreso ao constatar, às vezes, como tão singelas perguntas podem render tantas horas de conversa. É preciso, porém, estar sempre por perto. E depois; oras, uma simples pergunta não faz mal a ninguém!
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Senna
Tive uma grata surpresa ao descobrir que o filme que estava prestes a ver, sobre a meteórica carreira de um dos maiores esportistas brasileiros – e decerto mundiais –, era legendado. Tratava-se de “Senna – beyond the speed of sound" (Senna, além da velocidade do som), documentário britânico lançado em novembro em homenagem aos 50 anos do nascimento do paulistano Ayrton Senna.Lembro-me de ouvir no rádio as conquistas de Senna enquanto disputava a Fórmula 3. Não me foi estranho quando seu nome apareceu na Fórmula 1, embora eu gostasse mais de futebol. Eu era um menino lutando contra o sono enquanto ele lutava com um carro modesto no GP de Suzuki em 1.984, onde, por pouco, não chegou em primeiro.
O que mais surpreende em Senna é a sua disposição para a superação. “O primeiro lugar ou nada” – dizia. E fazia misérias ao volante, como se o carro fosse uma extensão de si mesmo. Largava mal, sofria infortúnios e ficava para trás em princípio, mas com inata habilidade reconquistava posições, uma a uma, até vencer no final. De estalo me lembrei do lindo “Carruagens de fogo”, em que também um esportista, também um corredor, obteve êxito depois de cair nas raias do atletismo. Nada pode ser mais comemorado, pensei, do que a conquista merecida, do que o esforço elevado à exaustão.
O filme completa um percurso conhecido, embora mostre cenários inéditos, pontuados por depoimentos, tensões, emoções e entrevistas de Senna em inglês. É possível sentir a sua angústia nos acidentes que presencia, a sua solidariedade, sua luta por melhores condições de segurança. É visível a sua aversão aos avanços da tecnologia, em contraponto ao desempenho dos pilotos; mais valia correr num kart, onde existia menos politicagem.
É inspirador contemplar a sua ascensão nas pistas, carregando garra, retidão e Deus ao cockpit, para junto de quem se seguiu à curva de Tamburello, deixando como legado o exemplo do verdadeiro campeão: aquele que nunca desiste da vitória, mesmo quando a partida parece perdida.
Bodas de Rubi
Quando as trombetas anunciarem 22 de novembro e pelas portas passarem as damas da honra e da honestidade, carregando nas próprias mãos uma boda de rubi, serei capaz de contemplar os 40 anos que os meus pais, Renato e Antonia, completam com louvores.Ao me dar com a igreja tão enfeitada, com os trajes tão mais sóbrios e os rostos tão familiares, posso me estender da água benta ao altar num único sobrevoo, como se eu mesmo abençoasse a união dos noivos. O padre é o mesmo com quem eu me encontro semanalmente, o tapete vermelho está salpicado de rosas e a cerimônia é católica, mas num interlúdio penso no preceito budista em que os filhos escolhem de que pais vão nascer. Serei feliz na minha escolha? -pergunto aos anjos dos vitrais.
Lá fora vejo divórcios e dores entre pais e mães, que me aquietam; vejo ofensa e falsidade como se um juramento fosse um estalido rouco de sinos. Vejo histórias que terminam por nada e vejo o privilégio da história que por nada termina. A vida é feita de escolhas, digo aos anjos dos vitrais.
Na troca de alianças vejo os mesmos olhares serenos que passaram pelos contratempos sem nenhum desdouro. Posso ver o marido que ensina a esposa a dirigir e vejo o homem motorista e passageiro com a mesma compleição; posso ver a noiva se dar mais à família que com seus próprios encantos. Vejo um sorriso e depois outro, como se tem sucedido em sinal de bonança. “O amor verdadeiro – disse o escritor Victor Hugo – é como o mar: por mais violentas que sejam as tempestades à superfície, o fundo permanece calmo.”
Ouço o valor da promessa, maior à presença divina, ressoar como um cântico pelas chamas das velas que ainda cintilam. Do altar à vida lá fora andam sob o mesmo compasso, o mesmo com que minha irmã, Maria Helena, e eu nos orgulhamos de andar. De braços dados são companheiros desde a chuva de arroz e o beijo na fronte ainda exala o respeito que eu, como filho, aprendi só de olhar. E sou feliz na minha escolha, digo aos anjos dos vitrais; mais feliz não poderia ser.
Destino
A cena parece comum: alguém numa estrada diante de três caminhos a seguir. Não há placas ou indícios de que um ou outro seja melhor ou pior: são apenas caminhos.
Diante da chuva em Nova York, três táxis estacionam aos sinais de passageiros, entre os quais está a atriz novata, recém-saída de qualquer lugar onde fizera compras.
Em Osasco quatro amigas vão ao shopping center, distante da escola poucas quadras, perto o suficiente para um lanche na aula vaga. Duas delas vão à frente, pouco mais ligeiras; as duas outras vão em seguida, mais vagarosas porque um sinal vermelho segurou-as por um instante.
No guichê da companhia aérea o executivo esbraveja com a operadora cujo engano acabou por tira-lo do voo para uma reunião importante em Recife. Na vaga dele vai se sentar, pela primeira vez num avião, um pedreiro pernambucano em visita à família.
A atriz novata escolhe o mesmo táxi que o celebrado cineasta, que topa dividir a viagem com ela. Curiosamente o destino dos dois é quase o mesmo e a atriz é tão irreverente quanto bela aproveita a oportunidade para dizer que é boa no que faz, o que ele decide verificar. Desta corrida vai nascer uma das grandes estrelas de Hollywood.
As duas amigas ligeiras chegam primeiro ao shopping center – e à praça de alimentação –, e não sobrevivem à explosão em decorrência de um vazamento de gás, à qual escapam as outras duas. Sinais vermelhos, do que tantos reclamam, podem salvar vidas.
O executivo empalidece quando descobre que o avião que perdera por incompetência da ruiva com sardas cai sem deixar sobreviventes. Vai nascer de novo depois disso. Vai observar os sinais da vida e do trânsito como se eles dissessem por seus meios: ‘espere um instante’, ‘vá com segurança’ ou ‘não vá dessa vez’. Vai compreender o que os enfezados, os quadrados e os sistemáticos insistem em não ver, achando que controlar é o maior dos verbos humanos. Quem esbraveja pode não estar ouvindo a vida falar e pode, sem saber, estar insistindo em um lugar num voo condenado.
Diante da chuva em Nova York, três táxis estacionam aos sinais de passageiros, entre os quais está a atriz novata, recém-saída de qualquer lugar onde fizera compras.
Em Osasco quatro amigas vão ao shopping center, distante da escola poucas quadras, perto o suficiente para um lanche na aula vaga. Duas delas vão à frente, pouco mais ligeiras; as duas outras vão em seguida, mais vagarosas porque um sinal vermelho segurou-as por um instante.
No guichê da companhia aérea o executivo esbraveja com a operadora cujo engano acabou por tira-lo do voo para uma reunião importante em Recife. Na vaga dele vai se sentar, pela primeira vez num avião, um pedreiro pernambucano em visita à família.
A atriz novata escolhe o mesmo táxi que o celebrado cineasta, que topa dividir a viagem com ela. Curiosamente o destino dos dois é quase o mesmo e a atriz é tão irreverente quanto bela aproveita a oportunidade para dizer que é boa no que faz, o que ele decide verificar. Desta corrida vai nascer uma das grandes estrelas de Hollywood.
As duas amigas ligeiras chegam primeiro ao shopping center – e à praça de alimentação –, e não sobrevivem à explosão em decorrência de um vazamento de gás, à qual escapam as outras duas. Sinais vermelhos, do que tantos reclamam, podem salvar vidas.
O executivo empalidece quando descobre que o avião que perdera por incompetência da ruiva com sardas cai sem deixar sobreviventes. Vai nascer de novo depois disso. Vai observar os sinais da vida e do trânsito como se eles dissessem por seus meios: ‘espere um instante’, ‘vá com segurança’ ou ‘não vá dessa vez’. Vai compreender o que os enfezados, os quadrados e os sistemáticos insistem em não ver, achando que controlar é o maior dos verbos humanos. Quem esbraveja pode não estar ouvindo a vida falar e pode, sem saber, estar insistindo em um lugar num voo condenado.
Comer, rezar, amar – O filme
Nessa semana finalmente assisti ao filme sobre cujo título havia comentado antes. Trata-se de “Comer, rezar, amar” (Eat, pray, love; 2.010), que vendeu milhões de livros e ingressos mundo afora, que notadamente interessou a muitas pessoas e que oficialmente desagradou a outras tantas.Que o bendigam os amantes das viagens, das reviravoltas e das lendas do amor perfeito; que o maldigam os italianos, desgostosos pela originalidade que o filme não mostra em relação aos seus costumes e ao seu país, embora tantas das suas nuanças estejam lá.
Em outro momento eu dizia sobre as expectativas que o filme me causava e isso apenas baseado no título. Escrevi, em pleno Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, que comer, rezar e amar são verbos nutritivos por excelência, do corpo e da alma.
Escrevi também por familiaridade aos títulos, aos quais guardo grande importância desde os tempos do colégio, quando meu professor de português, Viriato Trancoso, fazia-me capturar dos livros o seu sentido. “Qual a razão do título?” – perguntava-me nas provas.
E aqui, como Clarice Lispector, também eu poderia dar outros títulos para o mesmo enredo, sinal de que as lições realmente aparecem para aqueles que as procuram, sejam as histórias ou os filmes bons ou ruins: há sempre uma passagem, um diálogo ou uma cena que valha a pena.
Talvez eu trocasse os três verbos substanciais por três substantivos comuns ou talvez o chamasse “Viagens, prazeres, descobertas”, porque a busca de Elizabeth Gilbert – a escritora retratada na cinebiografia, interpretada por Julia Roberts – não era tão espiritualizada como eu pensava. Pelo contrário: parece rezar pela primeira vez quando está prestes a se divorciar, ainda que sem razão aparente. E sai em busca do que não sabe ao certo.
Mas há belas mensagens no filme. Ensina algo sobre a moderação, sobre o desapego, sobre a solidariedade, sobre a tradição, sobre a família: "A única coisa permanente na vida é a família". Ensina sobretudo que para aprender basta estar vivo
Comer, rezar, amar
Em meio à contramão, preciso antes dizer que ainda não assisti ao novo filme de Ryan Murphy, “Comer, rezar, amar”, lançado em outubro nos cinemas, baseado no livro autobiográfico de Elizabeth Gilbert, cujo enredo eu também – criteriosamente – não conheço.
Tive o cuidado de me manter alheio à história para escrever sobre o seu título, que eu considero um dos mais sugestivos dos últimos tempos, a exemplo de “Amar, verbo intransitivo”, criado por Mário de Andrade em 1.927.
Escrevo por familiaridade aos títulos, que a propaganda me ensinou a compreender melhor. “Os títulos – disse o publicitário inglês David Ogilvy – são praticamente 80% do anúncio.”
Na literatura e no cinema os bons títulos podem representar mais do que a imagem marcante, mais do que as palavras bonitas. Talvez representem mais do que a própria mensagem por que, mais que encabeçar, os títulos significam. E mais que significar, eles arrebanham: imagens, palavras e mensagens não funcionam sozinhas.
Por essa razão temos um nome, que se torna eterno não por si mesmo, mas pela sequência dos bons gestos que realizamos, dos bons termos que dizemos ou pelos exemplos que deixamos.
Escrevo por que o novo título me fez refletir e escritores, antes observadores, encontram histórias em brancas nuvens, em livros que nunca leram e em filmes que não viram.
Em comum com a cinebiografia e com o best-seller empreendo apenas três verbos, talvez destes os mais humanos. Comer, rezar e amar me inspiram equilíbrio, como se a oração e a benevolência reverberassem respeito e o absorver não fosse esganado, mas nutritivo.
Não sei o que Julia Roberts protagoniza, mas imagino que tenha mais propriedade que os glutões, os fanáticos religiosos e os malqueridos.
Comer, rezar e amar se movem em direções diferentes – de fora para dentro, de baixo para cima e de dentro para fora –, mas chegam ao mesmo destino: alimentam o corpo e a alma, pela experiência, pela contemplação e pela solicitude. E, como na literatura e no cinema, não funcionam sozinhos.
Tive o cuidado de me manter alheio à história para escrever sobre o seu título, que eu considero um dos mais sugestivos dos últimos tempos, a exemplo de “Amar, verbo intransitivo”, criado por Mário de Andrade em 1.927.
Escrevo por familiaridade aos títulos, que a propaganda me ensinou a compreender melhor. “Os títulos – disse o publicitário inglês David Ogilvy – são praticamente 80% do anúncio.”
Na literatura e no cinema os bons títulos podem representar mais do que a imagem marcante, mais do que as palavras bonitas. Talvez representem mais do que a própria mensagem por que, mais que encabeçar, os títulos significam. E mais que significar, eles arrebanham: imagens, palavras e mensagens não funcionam sozinhas.
Por essa razão temos um nome, que se torna eterno não por si mesmo, mas pela sequência dos bons gestos que realizamos, dos bons termos que dizemos ou pelos exemplos que deixamos.
Escrevo por que o novo título me fez refletir e escritores, antes observadores, encontram histórias em brancas nuvens, em livros que nunca leram e em filmes que não viram.
Em comum com a cinebiografia e com o best-seller empreendo apenas três verbos, talvez destes os mais humanos. Comer, rezar e amar me inspiram equilíbrio, como se a oração e a benevolência reverberassem respeito e o absorver não fosse esganado, mas nutritivo.
Não sei o que Julia Roberts protagoniza, mas imagino que tenha mais propriedade que os glutões, os fanáticos religiosos e os malqueridos.
Comer, rezar e amar se movem em direções diferentes – de fora para dentro, de baixo para cima e de dentro para fora –, mas chegam ao mesmo destino: alimentam o corpo e a alma, pela experiência, pela contemplação e pela solicitude. E, como na literatura e no cinema, não funcionam sozinhos.
Um sopro de cultura
Por ocasião do Outubro Literário, que acontece por realização da Secretaria da Cultura de Indaiatuba, pude assistir à palestra de Ruy Castro, um dos grandes autores brasileiros, biógrafo de Nelson Rodrigues (“O anjo pornográfico”, de 1.992), de Garrincha (“A estrela solitária”, 1.995 – que virou filme) e de Carmem Miranda (“Carmem, uma biografia”, de 2.005), sobre os quais dedicou grande parte da apresentação, além de versar sobre os entremeios da biografia e do jornalismo
O Outubro Literário é a nova criação de Indaiatuba, que tanto tem feito pela cultura, ora por suas secretarias, ora por outras iniciativas. Como os prestigiosos “Maio Musical”, “Agosto das Artes”, “Setembro em Dança” e "Novembro em Cena" – que já são, por si só, um espetáculo de concepção –, o Outubro Literário propõe um mês de eventos, apresentações de peso e acontecimentos correlatos. Estão previstas oficinas, palestras, contações de histórias, peças de teatro, mostras e saraus.
Méritos tem Indaiatuba por sediar o reconhecido “Passo de Arte” – uma competição de dança de proporções internacionais –, ou por suscitar a sua própria Virada Cultural. Méritos por abrigar feiras de artesanato, por oferecer sessões de cinema especiais como o Cineclube e o festival italiano, por patrocinar a formação de novos músicos, de novos artistas do teatro e da dança, por realizar seus festivais musicais, culturais e gastronômicos, por manter acesa a memória da cidade – pela Fundação Pró-Memória e pelo Casarão Pau Preto –, sobretudo com as suas destacadas colônias suíças, alemãs, japonesas e italianas, que vez por ano se reúnem na famosa Festa das Nações Unidas.
Diante de tanto acesso à cultura e ao entretenimento, de tantos belos, amplos e confortáveis palcos, de tantos shows, artistas e atrações de variadas magnitudes, para todas as idades, para todos os bolsos e por todo o calendário, abstém-se apenas os desinformados ou os desinteressados. Num país onde se lê pouco e onde as novelas são campeãs de audiência, Indaiatuba é um sopro de cultura.
O Outubro Literário é a nova criação de Indaiatuba, que tanto tem feito pela cultura, ora por suas secretarias, ora por outras iniciativas. Como os prestigiosos “Maio Musical”, “Agosto das Artes”, “Setembro em Dança” e "Novembro em Cena" – que já são, por si só, um espetáculo de concepção –, o Outubro Literário propõe um mês de eventos, apresentações de peso e acontecimentos correlatos. Estão previstas oficinas, palestras, contações de histórias, peças de teatro, mostras e saraus.
Méritos tem Indaiatuba por sediar o reconhecido “Passo de Arte” – uma competição de dança de proporções internacionais –, ou por suscitar a sua própria Virada Cultural. Méritos por abrigar feiras de artesanato, por oferecer sessões de cinema especiais como o Cineclube e o festival italiano, por patrocinar a formação de novos músicos, de novos artistas do teatro e da dança, por realizar seus festivais musicais, culturais e gastronômicos, por manter acesa a memória da cidade – pela Fundação Pró-Memória e pelo Casarão Pau Preto –, sobretudo com as suas destacadas colônias suíças, alemãs, japonesas e italianas, que vez por ano se reúnem na famosa Festa das Nações Unidas.
Diante de tanto acesso à cultura e ao entretenimento, de tantos belos, amplos e confortáveis palcos, de tantos shows, artistas e atrações de variadas magnitudes, para todas as idades, para todos os bolsos e por todo o calendário, abstém-se apenas os desinformados ou os desinteressados. Num país onde se lê pouco e onde as novelas são campeãs de audiência, Indaiatuba é um sopro de cultura.
Nosso lar

Não tem me surpreendido o sucesso que a temática da pós-morte tem alcançado – através do cinema e da televisão – no Brasil, um país de maioria católica. Mesmo os que acreditam na vida eterna tem alguns naturais questionamentos – que talvez fiquem eternamente sem respostas.
Lembro-me de ter lido o interessantíssimo “Vida depois da vida”, do dr. Raymond Moody Jr., em que conta, baseado em relatos de pessoas que voltaram do coma, as considerações de quem esteve muito perto da morte. Contemplar-se ou fora do corpo ou a luzes perfulgentes, sentir paz e quietude, ouvir ou sons ressoantes ou a notícia da própria falência são algumas similaridades entre os depoentes, talvez o mais próximo que se possa chegar ao outro lado, já que a vida após a vida não pode ser comprovada nem pelo homem nem por nenhuma das doutrinas religiosas.
Em “Nosso lar”, de Wagner de Assis, lançado em setembro nos cinemas, o médico André Luís desencarna após um infarto, deixando a esposa e os filhos na Terra a caminho de outra dimensão, de onde descreve a vida após a vida. É uma história emocionante, muito por entoar a belíssima “Sonata ao luar”, de Beethoven – que caiu muito bem à história –, muito por ser André Luís uma alma virtuosa, de boas intenções, solícita, que então reconhece as imperfeições humanas – inclusive as suas –, compreende o universo da existência terrena e passa a colaborar para torná-la melhor de onde está.
Embora muitos contestem, muitos acreditam que o então espírito André Luís tenha referido, pelo então médium Chico Xavier, não só o desencarne, nem a vida em outras esferas, mas ensinamentos para uma existência melhor nas dezenas de livros que escreveram juntos, entre os quais figura o próprio “Nosso lar”, baseado no qual foi produzido o filme.
Independente de credos é uma história que privilegia a virtude, os princípios, a consciência das próprias falhas como escala de evolução. Mais importante do que chegar à Providência Divina é celebrar o Seu mais poderoso desígnio: a vida.
Almoço em agosto
Por ocasião do 10º Festival de Cinema Italiano, que acontece anualmente – às quintas-feiras de setembro –, no Multiplex Topázio, em Indaiatuba, pude assistir à comédia “Almoço em agosto” (2.008), de Gianni di Gregori, escolhida para encerrar o evento.Os outros filmes selecionados pelos realizadores – o próprio Multiplex Topázio, em parceria com a Sociedade Ítalo-Brasileira – para esta edição foram “Don Camillo” (1.953), de Julien Duvivier, “Os palhaços” (1.971), de Federico Fellini e “Ontem, hoje e amanhã” (1.963), de Vittorio de Sica. Muitos clássicos do cinema italiano foram exibidos em outras edições do festival, que pretende – cobrando 1 kg de alimento como ingresso – prestigiar não só a cultura italiana, mas as entidades assistenciais da cidade, para quem a renda é revertida.
Sucedendo uma apresentação com músicas italianas e sorteio de massas, e precedendo uma festinha com bolo e vinho em comemoração ao 10º aniversário do festival, “Almoço em agosto” é um filme manso. Manso como Roma no feriado de Ferragosto, o que se dá no verão, em que a cidade fica vazia; manso como o sessentão que cuida da mãe viúva, e por essa razão não pode trabalhar, mansidão esta que o promove a uma situação inusitada: vê-se às voltas com outras velhinhas em seu apartamento, cuidando delas como cuida da mãe.
"Durante o tempo que morei com a minha mãe – diz o diretor –, vi de perto o mundo dos idosos. Vi a força e a vida que eles têm; a solidão e o medo do abandono.” Motivado por essa condição na vida real, Gianni di Gregori optou por filmar ‘a melhor idade’, suas manias, suas restrições, suas memórias. “Gosto de recordar essas coisas de infância –, diz Grazia – por que a velhice nos dá tão pouco.”
O filme é manso como os velhinhos, por quem tenho eterno apreço. Não se vêem comédias como essa, em que o companheirismo aparece mais que as piadas. “Não é filme para a gargalhada – diz o crítico Marcello Avellar – é para o sorriso.” A ternura é o sorriso do filme; o idoso é sorriso da vida.
Tédio
Desalento. Apatia, fraqueza. Corpo pesado, preguiça, solidão. O tédio mora entre a falta de ação e a sonolência, em cuja ambiência vivem a aridez e a letargia, onde o céu está cinza, as ruas estão desertas e as árvores dos jardins – mesmo as floridas –, estão ressequidas e incolores. Na vizinhança se aglomeram medos e dissabores, a tristeza passa próxima ao abismo, o pensamento circula perdido e o vazio cresce à beira de bobagens.
O mais correto seria culpar o despropósito, ao redor de cujos tentáculos passeia a ociosidade. A falta de grandes objetivos na vida equivale à canoa sem remos: fica ali sem referência, balançando de lado para outro ao tempero das ondas que os outros deixam quando passam em seus navios, com os seus motores, com as suas bússolas e com os seus destinos traçados. E o fazem sorridentes, distintos, achegados, como se o entediado não compartilhasse da sorte do mundo.
O entediado vê borrões no arco-íris, lê garranchos nos bons livros e ouve chiado nas boas músicas. “Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, – escreve Fernando Pessoa – mas a doença maior de sentir que não vale a pena fazer nada.”
O perigo da não-ação pode advir dos excessos: em muitos casos, quem tem demais se preocupa de menos. Quem tem de menos se preocupa em sobreviver e sobreviventes não sentem tédio. Não sentem tédio os curiosos, os interessados, os expansivos, os que encontram tarefas por fazer. O perigo advém entre aqueles que não as enxergam ou não se dispõem a cumpri-las, o que às vezes sobrecarrega os demais. O perigo advém da indiferença, das parcas perguntas para tantas histórias, do pouco exame de consciência.
Entretanto, a vida floresce mesmo na aridez, como se sabe. Mesmo nos desertos encontramos uma sombra de benquerença, um oásis no caminho que deslinda uma nova perspectiva. Uma luz de incentivo, uma fé renovada, uma outra confiança, uma nova compreensão: a de que existe sempre alguma coisa acontecendo ao nosso redor esperando pela nossa prontidão.
O mais correto seria culpar o despropósito, ao redor de cujos tentáculos passeia a ociosidade. A falta de grandes objetivos na vida equivale à canoa sem remos: fica ali sem referência, balançando de lado para outro ao tempero das ondas que os outros deixam quando passam em seus navios, com os seus motores, com as suas bússolas e com os seus destinos traçados. E o fazem sorridentes, distintos, achegados, como se o entediado não compartilhasse da sorte do mundo.
O entediado vê borrões no arco-íris, lê garranchos nos bons livros e ouve chiado nas boas músicas. “Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, – escreve Fernando Pessoa – mas a doença maior de sentir que não vale a pena fazer nada.”
O perigo da não-ação pode advir dos excessos: em muitos casos, quem tem demais se preocupa de menos. Quem tem de menos se preocupa em sobreviver e sobreviventes não sentem tédio. Não sentem tédio os curiosos, os interessados, os expansivos, os que encontram tarefas por fazer. O perigo advém entre aqueles que não as enxergam ou não se dispõem a cumpri-las, o que às vezes sobrecarrega os demais. O perigo advém da indiferença, das parcas perguntas para tantas histórias, do pouco exame de consciência.
Entretanto, a vida floresce mesmo na aridez, como se sabe. Mesmo nos desertos encontramos uma sombra de benquerença, um oásis no caminho que deslinda uma nova perspectiva. Uma luz de incentivo, uma fé renovada, uma outra confiança, uma nova compreensão: a de que existe sempre alguma coisa acontecendo ao nosso redor esperando pela nossa prontidão.
A importância da água
Sempre fui um grande apaixonado por água. Por ocasião de uma bronquite, ainda muito criança, a natação foi indicada ao meu caso e posso dizer que foi amor à primeira mergulhada. A água do mar, dos lagos e das piscinas sempre foram sinônimo de férias, pescaria e esporte, ainda que tenha aprendido a contemplar a mais fina garoa como o mais belo por do sol.
Daquela época até hoje a água deixou de ser um líquido e passou a ser um símbolo. O mar levou a ideia de recreação e trouxe paz e higiene mental; a natação deixou de ser mecânica e corporal para ser relaxante e um copo d’água passou a significar mais do que simplesmente matar a sede. Transformou-se no símbolo da boa saúde.
Um adulto elimina perto de 2 litros d’água por dia, mas nem todos se dão ao trabalho de reconstitui-los, independente da sede. Os especialistas aconselham a ingestão dos mesmos 2 litros – ou 8 copos – diários, para que o corpo desempenhe a contento as suas funções. Como os excessos são prejudiciais, não se recomenda muito mais do que isso, ainda mais sem a devida eliminação. Vale lembrar que alguns alimentos – como a alface, o aipo, o pepino, o repolho cru, a melancia, o brócolis fervido e a laranja, entre outros – também constituem, como o leite e outros líquidos, grandes porcentagens de água.
A água regula a temperatura do corpo, mantém os rins ativos, dilui sólidos, transporta nutrientes, elimina impurezas, benze e opera milagres.
Aliás, a água quase sempre esteve associada aos propósitos divinos: nos rituais cristãos como o batismo, nos rituais wiccanos e xintoístas de limpeza, nos banhos que simbolizam a passagem para uma nova vida, purificada com a remissão dos pecados.
A água renova, revitaliza e lava, sobretudo a alma. Com açúcar acalma os ânimos, com sal tempera a vida. Com pouco faz muito e com muito derruba obstáculos, impiedosa, que se opuserem à sua frente. Contorna curvas ou alturas e se amolda a qualquer forma como um símbolo de força e de garra, exemplo a que todos nós devemos seguir.
Daquela época até hoje a água deixou de ser um líquido e passou a ser um símbolo. O mar levou a ideia de recreação e trouxe paz e higiene mental; a natação deixou de ser mecânica e corporal para ser relaxante e um copo d’água passou a significar mais do que simplesmente matar a sede. Transformou-se no símbolo da boa saúde.
Um adulto elimina perto de 2 litros d’água por dia, mas nem todos se dão ao trabalho de reconstitui-los, independente da sede. Os especialistas aconselham a ingestão dos mesmos 2 litros – ou 8 copos – diários, para que o corpo desempenhe a contento as suas funções. Como os excessos são prejudiciais, não se recomenda muito mais do que isso, ainda mais sem a devida eliminação. Vale lembrar que alguns alimentos – como a alface, o aipo, o pepino, o repolho cru, a melancia, o brócolis fervido e a laranja, entre outros – também constituem, como o leite e outros líquidos, grandes porcentagens de água.
A água regula a temperatura do corpo, mantém os rins ativos, dilui sólidos, transporta nutrientes, elimina impurezas, benze e opera milagres.
Aliás, a água quase sempre esteve associada aos propósitos divinos: nos rituais cristãos como o batismo, nos rituais wiccanos e xintoístas de limpeza, nos banhos que simbolizam a passagem para uma nova vida, purificada com a remissão dos pecados.
A água renova, revitaliza e lava, sobretudo a alma. Com açúcar acalma os ânimos, com sal tempera a vida. Com pouco faz muito e com muito derruba obstáculos, impiedosa, que se opuserem à sua frente. Contorna curvas ou alturas e se amolda a qualquer forma como um símbolo de força e de garra, exemplo a que todos nós devemos seguir.
Coco Chanel & Igor Stravinsky
Está em cartaz um novo filme sobre a vida de uma das maiores personalidades do mundo da moda, a francesa Gabrielle Bonheur Chanel (1.883-1.971), conhecida pelo apelido de ‘Coco’ Chanel em razão do refrão de uma música que ela gostava de cantar – chamada ‘Qui qu’a vu Coco?’ (‘Quem viu Coco’)? – quando ainda se apresentava em bares e cafés, antes do estrelato. Recentemente, Audrey Tautou, em ‘Coco antes de Chanel’ (2.009), e Shirley McLaine, em ‘Coco Chanel’ (2.008), interpretaram a estilista no cinema.Neste ‘Coco Chanel & Igor Stravinsky’, lançado no final de agosto no Brasil, a atriz francesa Anna Mouglalis encarna a já consagrada mulher de negócios, à frente de seu prestigioso ateliê, à frente dos seus traços libertadores, à frente do seu tempo. Igor Stravinsky (1.882-1.971), é um compositor russo que desembarca na Paris de 1.913 para apresentar o balé ‘A sagração da primavera’, considerado essencialmente escandaloso para a época. Na plateia o destino coloca Chanel.
Coco Chanel e Igor Stravinsky são dois instintos revolucionários, duas almas inspiradas, dois ícones do Século XX que a arte e a guerra ajudaram a aproximar. Chanel quer renovar o mundo da moda; Stravinsky quer revirar o mundo da música. São os dois artistas, os dois espíritos sensíveis e as duas personalidades marcantes que o filme quer retratar. “Você compõe primeiro no papel? – pergunta Coco. Não, começo sempre ao piano; preciso sentir a música em meus dedos – responde Igor. Eu também – diz ela –, nunca faço esboços; preciso sentir o tecido”.
Chanel está para Stravinsky assim como Ludovico, o Mouro, está para Leonardo da Vinci: assim como o Duque de Milão, a abastada estilista promove a criação genial do artista e do visionário, como a história se encarrega de contar. E mais do que isso: ausculta a relação entre os dois, os seus medos, as suas buscas. O cenário recende o perfume que Coco tanto procura, irradia bom gosto, elegância e glamour; a trilha toca Stravinsky, ressoa beleza e retumba paixão.
Os desígnios da roça
O trânsito caótico das cidades grandes deixou de ser um assunto novo há décadas, já que há bastante tempo se vem discutindo os engarrafamentos nas ruas das pequenas também. Recarregado da paz da fazenda, vejo a impaciência diariamente estampada por detrás dos vidros dos carros; pressa e indisciplina maiores do que educação e diligência.
Ainda essa semana uma ambulância não conseguia entrar no hospital para onde se destinava, em decorrência de uma fila indiana de carros que insistia em não parar para que ela pudesse atravessar da avenida até o estacionamento, alguns metros dali. Um bom samaritano, observando à cena de longe, aproximou-se à pé para barrar o carro seguinte. Eu sei por que quem estava na ambulância era nonna mia.
Nonna mia sofreu uma queda doméstica, fraturou o fêmur, foi hospitalizada e passou por uma cirurgia para a colocação de uma placa de platina. Ainda em recuperação sofreu nova queda, nova fratura – o fêmur da outra perna –, e nova cirurgia, prestes a completar 94 anos.
Diante do espanto dos médicos e enfermeiros com tamanha força e vontade de viver, foi natural que eu associasse sua surpreendente recuperação à sua vida atrelada à natureza e ao seu pendor para a simplicidade. Nonna mia viveu na roça grande parte da sua trajetória, onde vivia à luz dos lampiões, cozinhava no fogão à lenha, banhava-se sob a água que ela mesma esquentava e cantava sob o som de violas e acordeões, sob a noite alumiada pelo calor da fogueira, ao par da vizinhança, da família e dos amigos. Livre da influência de industrializados, pisando a terra viva, absorvendo o ar puro do campo e a simplicidade da roça, cresceu mais forte que os seus netos e bisnetos, vorazes consumidores de fast-food, de tecnologia e de poluição.
No mundo das charretes não havia trânsito, a não ser o de gansos e galinhas d’angolas que voavam para dar passagem, pelo desígnio da sobrevivência. No mundo das ambulâncias os burros e os espíritos de porco voam sem dar passagem, pelo desígnio de imprudência.
Ainda essa semana uma ambulância não conseguia entrar no hospital para onde se destinava, em decorrência de uma fila indiana de carros que insistia em não parar para que ela pudesse atravessar da avenida até o estacionamento, alguns metros dali. Um bom samaritano, observando à cena de longe, aproximou-se à pé para barrar o carro seguinte. Eu sei por que quem estava na ambulância era nonna mia.
Nonna mia sofreu uma queda doméstica, fraturou o fêmur, foi hospitalizada e passou por uma cirurgia para a colocação de uma placa de platina. Ainda em recuperação sofreu nova queda, nova fratura – o fêmur da outra perna –, e nova cirurgia, prestes a completar 94 anos.
Diante do espanto dos médicos e enfermeiros com tamanha força e vontade de viver, foi natural que eu associasse sua surpreendente recuperação à sua vida atrelada à natureza e ao seu pendor para a simplicidade. Nonna mia viveu na roça grande parte da sua trajetória, onde vivia à luz dos lampiões, cozinhava no fogão à lenha, banhava-se sob a água que ela mesma esquentava e cantava sob o som de violas e acordeões, sob a noite alumiada pelo calor da fogueira, ao par da vizinhança, da família e dos amigos. Livre da influência de industrializados, pisando a terra viva, absorvendo o ar puro do campo e a simplicidade da roça, cresceu mais forte que os seus netos e bisnetos, vorazes consumidores de fast-food, de tecnologia e de poluição.
No mundo das charretes não havia trânsito, a não ser o de gansos e galinhas d’angolas que voavam para dar passagem, pelo desígnio da sobrevivência. No mundo das ambulâncias os burros e os espíritos de porco voam sem dar passagem, pelo desígnio de imprudência.
Trilhas
Tantas novas histórias trago de volta na bagagem, há dias entre a terra batida e a vida matuta. Acercado de propósitos, segui tantas das trilhas picadas por quase centena e meia de alqueires, em passos lentos e contemplativos que a calmaria da fazenda me emprestou.
Minha vista se perdia a distância e com ela se foram os meus pensamentos, fugidios como um par de tucanos que me sobrevoaram ladeados. Vi as veredas que pareciam ser muitas, mas me enfiei por entre a cerca de arame que circundava uma represa, ao meio de onde se alevantavam uma dúzia de buritis, um dos quais ainda servia de morada a duas ararinhas filhotes que mais tarde um cineasta viria filmar. Tive de me achegar para acreditar que aquela água era mesmo tão cristalina.
Melhor que pisar um tapete vermelho foi percorrer as primaveras que florearam na estiagem; melhor que as cores da propaganda foi encontrar um brotinho de flor azul ao meio do capim seco. Melhor que os refrigerantes foram as mexericas apinhadas no pé, a água do coco apanhada com a escada e as verduras colhidas na horta. Melhor que a pressa é parar por um instante para admirar o que os olhos não veem sozinhos.
Era bem cedo quando me sentei aos pés das pás da roda d’água que, naquele remanso, trabalham incansáveis. Àquela hora só os ovos chocos descansavam sob a diligência dos ninhos. Ainda há pouco estivera com os bezerros dividindo o leite quente no curral; ainda há pouco havia sereno nas folhas e ainda há pouco o galo amiudara no poleiro. Ainda há pouco seguiria outros caminhos, mas aonde fosse encontraria a mesma paz. Ainda que as cobras e as onças se avizinhassem e que os borrachudos, os picões e os espinhos me acossassem, o sol a pino e a lua posta alteavam mais graça que perigo. Ainda que no escuro montasse os cavalos do pasto, sem luz e sem rumo chegaria ao meu destino pelos desígnios da roça. Assim, muitas das minhas respostas se advieram quando entendi que para chegar às vezes não basta conhecer o caminho: é preciso ter um pouco de paz.
Minha vista se perdia a distância e com ela se foram os meus pensamentos, fugidios como um par de tucanos que me sobrevoaram ladeados. Vi as veredas que pareciam ser muitas, mas me enfiei por entre a cerca de arame que circundava uma represa, ao meio de onde se alevantavam uma dúzia de buritis, um dos quais ainda servia de morada a duas ararinhas filhotes que mais tarde um cineasta viria filmar. Tive de me achegar para acreditar que aquela água era mesmo tão cristalina.
Melhor que pisar um tapete vermelho foi percorrer as primaveras que florearam na estiagem; melhor que as cores da propaganda foi encontrar um brotinho de flor azul ao meio do capim seco. Melhor que os refrigerantes foram as mexericas apinhadas no pé, a água do coco apanhada com a escada e as verduras colhidas na horta. Melhor que a pressa é parar por um instante para admirar o que os olhos não veem sozinhos.
Era bem cedo quando me sentei aos pés das pás da roda d’água que, naquele remanso, trabalham incansáveis. Àquela hora só os ovos chocos descansavam sob a diligência dos ninhos. Ainda há pouco estivera com os bezerros dividindo o leite quente no curral; ainda há pouco havia sereno nas folhas e ainda há pouco o galo amiudara no poleiro. Ainda há pouco seguiria outros caminhos, mas aonde fosse encontraria a mesma paz. Ainda que as cobras e as onças se avizinhassem e que os borrachudos, os picões e os espinhos me acossassem, o sol a pino e a lua posta alteavam mais graça que perigo. Ainda que no escuro montasse os cavalos do pasto, sem luz e sem rumo chegaria ao meu destino pelos desígnios da roça. Assim, muitas das minhas respostas se advieram quando entendi que para chegar às vezes não basta conhecer o caminho: é preciso ter um pouco de paz.
Pater Amabilis
O Dia dos Pais que se avizinha do sertão é azul e verde: azul como o céu de brigadeiro, verde como um tapete de palmeiras, tão fundidos e indissolutos na paisagem quanto na intrínseca e delicada essência através da qual se conjugam.
O céu tão claro é mais claro no horizonte, ao nascente, para cima de onde galgam seus matizes em escala até o zênite formoso e pintado de escuro, cravejado de luminâncias que mais são lições que a vida ensinou. O verde primeiro é semente escondida que brota sob a égide de um amor incondicional, regada a doses diárias de educação e atenção. Depois cria raízes e sobe sozinha, frondejando seu espaço e frutificando a sua história.
Pais e filhos são semeadores da terra de Deus cujas relações não se podem desprezar. Fazem parte da mesma fazenda, avivados por outras presenças não menos importantes. Na medida em que a mãe fertiliza e alimenta, o pai é quem apruma e fortalece. A mãe provê as flores, o perfume e o encanto, mas é o pai quem guarnece energia, pertinácia e firmeza.
Na fazenda os pais são os maiores e os mais fortes, que espantam o perigo dos pequenos e dos mais frágeis. Os pais são os cavalos selvagens na companhia dos pôneis no meio do pasto, são os cães de grande porte por cima de quem se aninham e passeiam alguns pintinhos, são os bois bravos que ladeiam e protegem os bezerrinhos desmamados.
Na humanidade os pais caçam para a prole e a defendem com a própria vida quaisquer perigos imediatos, ataques iminentes ou ameaças imaginárias. Pais espantam mal-olhados, mal-encarados e bichos-papões e sofrem a própria dor dos filhos sem deixar que eles percebam os seus medos, as suas dúvidas e os seus próprios questionamentos.
Na vida seguimos os passos dos nossos pais e aprendemos a olhar para eles de modo diferente em cada fase da nossa vida: ora mais deslumbrados, ora mais admirados, mais implicantes, mais questionadores ou mais reflexivos; mas me espelho no meu para dizer que são sempre companheiros. Para mim, pais serão sempre super-heróis.
O céu tão claro é mais claro no horizonte, ao nascente, para cima de onde galgam seus matizes em escala até o zênite formoso e pintado de escuro, cravejado de luminâncias que mais são lições que a vida ensinou. O verde primeiro é semente escondida que brota sob a égide de um amor incondicional, regada a doses diárias de educação e atenção. Depois cria raízes e sobe sozinha, frondejando seu espaço e frutificando a sua história.
Pais e filhos são semeadores da terra de Deus cujas relações não se podem desprezar. Fazem parte da mesma fazenda, avivados por outras presenças não menos importantes. Na medida em que a mãe fertiliza e alimenta, o pai é quem apruma e fortalece. A mãe provê as flores, o perfume e o encanto, mas é o pai quem guarnece energia, pertinácia e firmeza.
Na fazenda os pais são os maiores e os mais fortes, que espantam o perigo dos pequenos e dos mais frágeis. Os pais são os cavalos selvagens na companhia dos pôneis no meio do pasto, são os cães de grande porte por cima de quem se aninham e passeiam alguns pintinhos, são os bois bravos que ladeiam e protegem os bezerrinhos desmamados.
Na humanidade os pais caçam para a prole e a defendem com a própria vida quaisquer perigos imediatos, ataques iminentes ou ameaças imaginárias. Pais espantam mal-olhados, mal-encarados e bichos-papões e sofrem a própria dor dos filhos sem deixar que eles percebam os seus medos, as suas dúvidas e os seus próprios questionamentos.
Na vida seguimos os passos dos nossos pais e aprendemos a olhar para eles de modo diferente em cada fase da nossa vida: ora mais deslumbrados, ora mais admirados, mais implicantes, mais questionadores ou mais reflexivos; mas me espelho no meu para dizer que são sempre companheiros. Para mim, pais serão sempre super-heróis.
Propósito
Viajar para o sertão goiano foi também uma opção para me desintoxicar de tanta modernidade, de tão enfincado no estado mais concorrido do país, ao redor de energia elétrica o tempo todo, onde tantas pressões convergem para apenas uma pessoa. Tal como os que procuram os campos, as montanhas ou a paz, alguns viajantes se retiram de seus cenários por certo para vislumbrá-los sob novas óticas, novas ideias ou novas esperanças. Desacelerar ou se desligar por um instante talvez seja tão importante quanto o estalar de uma nova inspiração.
Em propaganda aprendemos a importância do processo criativo, que se inicia com o propósito, aprofunda-se nas pesquisas, esquece-se na incubação, transforma-se nos insights e se completa na amarração. Os especialistas aconselham total afastamento do processo durante a fase da incubação: depois de estabelecida a meta, depois de tanto estudo, informação e investigação, é hora de pescar, de dormir na rede e de caminhar ao entardecer. Não que descansar represente pouco caso ou negligência, mas quando nos desligamos as nossas perguntas continuam piscando em busca de respostas, que virão tão mais facilmente quanto maiores forem os nossos índices de assossego.
Planejar, sim, é um dos maiores verbos da evolução humana, que a imaginação o acompanhe. Ter um propósito vigente é tão necessário quanto o ar que respiramos, para que a nossa vida não se torne sufocante. “Nada contribui tanto para tranqüilizar a mente – disse a escritora inglesa Mary Wollstonecraft –, como um propósito estável, um ponto sobre o qual a alma possa fixar o seu olhar intelectual.”
Assim, não valem só as viagens retirantes, mas também o exame de consciência, o instante de introspecção, a parada estratégica para o olhar do mirante. Temos sempre que estabelecer novas missões, às quais devemos nos agarrar, acercados de tanta informação acessível e de tanta fé interior. Sempre é tempo de um propósito e de um objetivo no mundo, pois o coração aceso na vida corre iluminando por onde passa.
Em propaganda aprendemos a importância do processo criativo, que se inicia com o propósito, aprofunda-se nas pesquisas, esquece-se na incubação, transforma-se nos insights e se completa na amarração. Os especialistas aconselham total afastamento do processo durante a fase da incubação: depois de estabelecida a meta, depois de tanto estudo, informação e investigação, é hora de pescar, de dormir na rede e de caminhar ao entardecer. Não que descansar represente pouco caso ou negligência, mas quando nos desligamos as nossas perguntas continuam piscando em busca de respostas, que virão tão mais facilmente quanto maiores forem os nossos índices de assossego.
Planejar, sim, é um dos maiores verbos da evolução humana, que a imaginação o acompanhe. Ter um propósito vigente é tão necessário quanto o ar que respiramos, para que a nossa vida não se torne sufocante. “Nada contribui tanto para tranqüilizar a mente – disse a escritora inglesa Mary Wollstonecraft –, como um propósito estável, um ponto sobre o qual a alma possa fixar o seu olhar intelectual.”
Assim, não valem só as viagens retirantes, mas também o exame de consciência, o instante de introspecção, a parada estratégica para o olhar do mirante. Temos sempre que estabelecer novas missões, às quais devemos nos agarrar, acercados de tanta informação acessível e de tanta fé interior. Sempre é tempo de um propósito e de um objetivo no mundo, pois o coração aceso na vida corre iluminando por onde passa.
Sertão de Goiás
Na próxima semana viajo para o cerrado goiano, uma das tantas maravilhas deste Brasil multigeográfico, florão da América, por onde se espalham das caatingas às serras e picos, dos platôs às grutas, do Pantanal às florestas de norte a sul; dos mangues e restingas às dunas, dos recifes às extensas e diversificadas redes fluviais, da imensa costa litorânea às ilhas marítimas, da fauna à flora ricamente abençoada ao povo tradicionalmente hospitaleiro.
Viajo para o meio do nada, onde os prédios são os grandes pequizeiros, as aroeiras e os gravatás; o trânsito são tropéis de bois e vacas que tocamos sobre a sela e as buzinas são piados e mugidos de vida e natureza acontecendo simultâneas. Viajo para o meio da grama e da orquídea, por onde, ao fundo da pequena descida nadam pequenos peixes num regatinho. Viajo para onde o asfalto não chega e as cancelas eletrônicas nem futuro distante são; onde na terra de chão não há marcas de rodas e onde, ao longe, se vêem apenas verde e azul, mesclados feito obra de arte, feito tela de Deus.
Levo comigo todos os meus alvoroços, que só o andar descalço não dispersa; levo as minhas dúvidas e os meus questionamentos, que a pacatez do sertão responde, levo o tanto do ar viciado da metrópole que pretendo trocar pelo puro. Levo na bagagem a cidade grande, mas lá tão distante sou pequeno e ouso me calar, porque quem cala, sente. Até aí, celular e notebook servem de encanto ou peso de porta, que diante de tais vislumbres um chip não é nada. Neste esplendor de cenário posso rever o fim de tarde mais belo de todos os tempos, o céu vermelho e violeta como dois tons da rosa e a noite tão estrelada quanto enfeitada por chamas no véu.
Chip só para poesia, que me valem guardar retratos da viagem sob a forma de histórias. Chip só em frações, que as histórias não contam o que os segundos me passam, que eu conto em um ponto quando, em sopros, me bastam. Chip só para artigos para vocês, ainda que prefira enviá-los por sinais de fumaça ou por pombos-correio.
Viajo para o meio do nada, onde os prédios são os grandes pequizeiros, as aroeiras e os gravatás; o trânsito são tropéis de bois e vacas que tocamos sobre a sela e as buzinas são piados e mugidos de vida e natureza acontecendo simultâneas. Viajo para o meio da grama e da orquídea, por onde, ao fundo da pequena descida nadam pequenos peixes num regatinho. Viajo para onde o asfalto não chega e as cancelas eletrônicas nem futuro distante são; onde na terra de chão não há marcas de rodas e onde, ao longe, se vêem apenas verde e azul, mesclados feito obra de arte, feito tela de Deus.
Levo comigo todos os meus alvoroços, que só o andar descalço não dispersa; levo as minhas dúvidas e os meus questionamentos, que a pacatez do sertão responde, levo o tanto do ar viciado da metrópole que pretendo trocar pelo puro. Levo na bagagem a cidade grande, mas lá tão distante sou pequeno e ouso me calar, porque quem cala, sente. Até aí, celular e notebook servem de encanto ou peso de porta, que diante de tais vislumbres um chip não é nada. Neste esplendor de cenário posso rever o fim de tarde mais belo de todos os tempos, o céu vermelho e violeta como dois tons da rosa e a noite tão estrelada quanto enfeitada por chamas no véu.
Chip só para poesia, que me valem guardar retratos da viagem sob a forma de histórias. Chip só em frações, que as histórias não contam o que os segundos me passam, que eu conto em um ponto quando, em sopros, me bastam. Chip só para artigos para vocês, ainda que prefira enviá-los por sinais de fumaça ou por pombos-correio.
Bondade
Não me canso de escrever sobre a virtude, ainda que nenhum dos diplomas na minha parede atestem a justa fórmula da vida. Prefiro acreditar que pontuar otimismo seja um tanto melhor para o espírito que encontrar tantas formas da miséria humana espalhadas pelas páginas da cidade. Aliás, para falar sobre a bondade não é necessário ter feito cursos específicos. Conheço pessoas das mais simples que são tão encantadoras por seus jeitos suaves, educados e desinteressados.
Ao falar sobre a bondade não serei nem o primeiro nem o último, porque Platão (428 a.C.-348 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) já debatiam a virtude, assim como o Ahimsa, um dos princípios do hinduísmo, através do qual se apregoa a não-violência, o mesmo que praticava Gandhi em seu tempo. “A sua bondade – diz a doutrina, em essência – é inversamente proporcional ao mal que você causa a seres sencientes.” As religiões recomendam a bondade; João, Mateus, Paulo; Confúcio e a Torá são unânimes em nos recomendar que não façamos para outrem o que nos é odioso. A bondade está contida nos mandamentos, na ética, na moral. Aristóteles acreditava que, se incutida nas pessoas, a virtude as tornariam melhores. Mais do que isso: que a própria virtude era o meio termo entre dois extremos.
Ser bondoso é ser agradável, razoável; é ser correto segundo os nossos valores, é anotar boas ações no nosso histórico, o que repercute pela nossa existência, na nossa alma e no nosso bem estar. Não só a religiosidade pode diminuir os riscos de problemas cardíacos – como a ciência tem mostrado –, mas a afabilidade entre as pessoas, a civilidade, a esperança de um futuro melhor.
Os pensamentos ecoam e a bondade nasce da intenção. Pessoas boas são bem intencionadas sobretudo por que compreendem a importância de não ferir o próximo, segundo a sua própria sensibilidade. Talvez o caminho mais virtuoso seja aquele em que sempre se oferece uma beleza. Afinal, como diz o provérbio: “a fragrância sempre permanece na mão de quem oferece flores”.
Ao falar sobre a bondade não serei nem o primeiro nem o último, porque Platão (428 a.C.-348 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) já debatiam a virtude, assim como o Ahimsa, um dos princípios do hinduísmo, através do qual se apregoa a não-violência, o mesmo que praticava Gandhi em seu tempo. “A sua bondade – diz a doutrina, em essência – é inversamente proporcional ao mal que você causa a seres sencientes.” As religiões recomendam a bondade; João, Mateus, Paulo; Confúcio e a Torá são unânimes em nos recomendar que não façamos para outrem o que nos é odioso. A bondade está contida nos mandamentos, na ética, na moral. Aristóteles acreditava que, se incutida nas pessoas, a virtude as tornariam melhores. Mais do que isso: que a própria virtude era o meio termo entre dois extremos.
Ser bondoso é ser agradável, razoável; é ser correto segundo os nossos valores, é anotar boas ações no nosso histórico, o que repercute pela nossa existência, na nossa alma e no nosso bem estar. Não só a religiosidade pode diminuir os riscos de problemas cardíacos – como a ciência tem mostrado –, mas a afabilidade entre as pessoas, a civilidade, a esperança de um futuro melhor.
Os pensamentos ecoam e a bondade nasce da intenção. Pessoas boas são bem intencionadas sobretudo por que compreendem a importância de não ferir o próximo, segundo a sua própria sensibilidade. Talvez o caminho mais virtuoso seja aquele em que sempre se oferece uma beleza. Afinal, como diz o provérbio: “a fragrância sempre permanece na mão de quem oferece flores”.
Delicadeza
Por ocasião de escrever sobre a romancista inglesa Jane Austen (1.775-1.817) essa semana, dei-me conta do quanto regredimos em relação ao nosso comportamento, aos nossos costumes ou relacionamentos. Mesmo se descontando o rigor no trato e na educação da sociedade inglesa dessa época – o que a escritora radiografa tão bem –, até meados do Século XX andar bem aprumado e usar de boas maneiras no dia a dia era menos que uma obrigação; era parte do cenário.
Perguntas como “Quem?” quando alguém atende ao telefone, exclamações como “ah, me poupe!” ou diretas como “não me encha o picuá” seriam objetos mais do que estranhos naquele tempo. Sem contar que o homem caminha para o grunhido, como disse José Saramago uma vez. Antigamente se dizia Vossa Mercê para se designar os nobres e os fidalgos, o que, com o tempo se tornou Vossemecê, Vosmecê e finalmente Você. Não me espanta que pelo mesmo processo as pessoas tenham passado a se preocupar mais consigo mesmas do que com os outros ao seu redor.
Acompanhar deixou de significar apreço e dignidade para designar interesse e conveniência; cortesia se tornou uma qualidade para pouco. Os bailes, as festas, as reuniões, tão comuns naquela época, eram preciosos momentos de confraternidade; a vizinhança não só se frequentava, mas partilhava de arte e cultura, música e camaradagem que foram diminuindo com o tempo. Os costumes previam estima e bom gosto, que eram observados nos modos de proceder e nos trajes pomposos e impecáveis.
Hoje os vizinhos não se conhecem, os amigos se encontram em bares, as famílias se reúnem com muito custo e as roupas valorizam mais o corpo que o caráter. Mesmo o respeito à autoridade decresceu. Apenas um olhar dos avôs de hoje já tinha a sua soberania, virtude a qual poucos pais de hoje detém.
Contudo, com tanta transformação, estou certo de que um pouco daquela época ainda vigora entre a educação e a polidez. Ainda que não venha do berço, sempre é tempo de fazer pelo outro o que gostaríamos que fizessem para a gente.
Perguntas como “Quem?” quando alguém atende ao telefone, exclamações como “ah, me poupe!” ou diretas como “não me encha o picuá” seriam objetos mais do que estranhos naquele tempo. Sem contar que o homem caminha para o grunhido, como disse José Saramago uma vez. Antigamente se dizia Vossa Mercê para se designar os nobres e os fidalgos, o que, com o tempo se tornou Vossemecê, Vosmecê e finalmente Você. Não me espanta que pelo mesmo processo as pessoas tenham passado a se preocupar mais consigo mesmas do que com os outros ao seu redor.
Acompanhar deixou de significar apreço e dignidade para designar interesse e conveniência; cortesia se tornou uma qualidade para pouco. Os bailes, as festas, as reuniões, tão comuns naquela época, eram preciosos momentos de confraternidade; a vizinhança não só se frequentava, mas partilhava de arte e cultura, música e camaradagem que foram diminuindo com o tempo. Os costumes previam estima e bom gosto, que eram observados nos modos de proceder e nos trajes pomposos e impecáveis.
Hoje os vizinhos não se conhecem, os amigos se encontram em bares, as famílias se reúnem com muito custo e as roupas valorizam mais o corpo que o caráter. Mesmo o respeito à autoridade decresceu. Apenas um olhar dos avôs de hoje já tinha a sua soberania, virtude a qual poucos pais de hoje detém.
Contudo, com tanta transformação, estou certo de que um pouco daquela época ainda vigora entre a educação e a polidez. Ainda que não venha do berço, sempre é tempo de fazer pelo outro o que gostaríamos que fizessem para a gente.
Simplicidade
Não conheço os segredos do Universo mas, na qualidade de simplório, quero dizer que a vida é simples como escrever: basta que tenhamos ideia e vontade para que tudo o mais misteriosamente se arrume. No dia a dia, grandes oportunidades aparecem quando sabemos exatamente para onde queremos ir.
Simplicidade é aceitar o curso natural das coisas, seus desvios, altos e baixos, sem interferir no seu andamento, sem inflar o próprio ego com títulos, conquistas ou imposições. ‘Ser esclarecido e ainda assim conservar a modéstia – disse o filósofo Lao Tsé – é converter-se numa referência para o mundo’. Aliás, Lao Tsé não é um nome, mas o significado de ‘velho mestre’, para designar um grande sábio que, conta a tradição, teria existido na China 6 séculos antes de Cristo, tempo em que teria legado o ‘Tao Te King’ ou ‘O livro do Caminho e da Virtude’, obra inaugural do Taoísmo. Quase todos os versos do Tao remetem à simplicidade. ‘Quando um indivíduo não questiona a humildade da sua posição – diz um deles –, permanece livre da contradição e da acusação.’
O filósofo francês Michel de Montaigne (1.533-1.592) também se referiu à simplicidade. Foi político, prefeito, importante, mas se retirou para refletir e escrever em seu castelo, onde conheceu lavradores alguns dos quais julgava mais sábios do que muitos universitários da sua época. ‘Uma pessoa pode ser sábia sem jamais ter estudado numa universidade. Para isso – disse ele – basta ter humildade, modéstia e aceitar as próprias limitações’. Ao contrário dos pensadores que acreditavam na razão como condutora à felicidade, Montaigne escreveu que temos tantos problemas justamente por sermos muito racionais: achamo-nos gordos, feios, desajeitados, cheios de bloqueios e complexos.
Ser simples é ser livre e sincero, sobretudo consigo mesmo. ‘O homem precavido – diz o Tao – depõe o coração no altar da Essência e, ao invés da aparência, colhe o fruto ao invés da flor’. Viver a simplicidade, antes de mais nada, pode ser mais simples do que parece.
Simplicidade é aceitar o curso natural das coisas, seus desvios, altos e baixos, sem interferir no seu andamento, sem inflar o próprio ego com títulos, conquistas ou imposições. ‘Ser esclarecido e ainda assim conservar a modéstia – disse o filósofo Lao Tsé – é converter-se numa referência para o mundo’. Aliás, Lao Tsé não é um nome, mas o significado de ‘velho mestre’, para designar um grande sábio que, conta a tradição, teria existido na China 6 séculos antes de Cristo, tempo em que teria legado o ‘Tao Te King’ ou ‘O livro do Caminho e da Virtude’, obra inaugural do Taoísmo. Quase todos os versos do Tao remetem à simplicidade. ‘Quando um indivíduo não questiona a humildade da sua posição – diz um deles –, permanece livre da contradição e da acusação.’
O filósofo francês Michel de Montaigne (1.533-1.592) também se referiu à simplicidade. Foi político, prefeito, importante, mas se retirou para refletir e escrever em seu castelo, onde conheceu lavradores alguns dos quais julgava mais sábios do que muitos universitários da sua época. ‘Uma pessoa pode ser sábia sem jamais ter estudado numa universidade. Para isso – disse ele – basta ter humildade, modéstia e aceitar as próprias limitações’. Ao contrário dos pensadores que acreditavam na razão como condutora à felicidade, Montaigne escreveu que temos tantos problemas justamente por sermos muito racionais: achamo-nos gordos, feios, desajeitados, cheios de bloqueios e complexos.
Ser simples é ser livre e sincero, sobretudo consigo mesmo. ‘O homem precavido – diz o Tao – depõe o coração no altar da Essência e, ao invés da aparência, colhe o fruto ao invés da flor’. Viver a simplicidade, antes de mais nada, pode ser mais simples do que parece.
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