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Homenagem

dedicado a Edvaldo Pereira Lima

A sensação de subir me transporta. Estou entre os degraus rolantes do metrô quando sou tomado por um arroubo de escrita rápida, talvez sentido por serem os próximos os últimos encontros. Estou parado, mas viajo para cima como se estivesse partindo para uma outra consciência, cujos guardiões são anjos que me deixam passar. E passo.
Comigo vem tantas outras realidades que não posso guardá-las apenas com um olhar. Posso sentir os pés no piso liso, as mãos soltas nos bolsos e a mochila nas costas, que mais precisa trazer as minhas palavras que as minhas roupas e os meus livros. Posso contar os meus passos, que são lentos e cuidadosos, porque quem tem paz não tem pressa. Posso sentir a frieza da estação, mas estou bem coberto: a serenidade me veste. Posso escrever com os olhos, livros de pessoas, histórias espalhadas ali pela sexta-feira, universos andantes, cada alma e sua trajetória, conectadas a mim como num singelo mapa mental.
Meu impulso é compartilhar o meu arrebato, a profusão das bandeiras juninas, o caos de cores que mais brincam de colorir e as frases lindas que me dão as mãos enquanto eu sigo anônimo. Juntos, descrevemos quase tudo à nossa volta com um quê de magia, talvez a inspiração de Machado em sua visita pelos jardins da minha memória. E nem quero andar, para não amassar as folhagens. Prefiro esperar o trem que chega e se vai sem que eu me mexa, alçado á condição de ser senciente. Talvez os próximos estejam tão cheios, que vem, e vem, e vem e tenho então a impressão de seguir, portas vazias adentro até a convicção de que às vezes eu acerto. Sorrio para alguém lá dentro, mas ela não me sorri de volta; noto que o sorriso não é meu, mas está estampado em mim.
Há espaço para que eu me acomode, mas minha natureza dá o lugar para os outros e cedo o banco para a paz de espírito até que eu me lembre que ali posso finalmente escrever. Por um instante penso se não é esta a alma do artista, que escreve no meio do povo como fazia Balzac, vivendo entre os mineiros e os carvoeiros para contar “Germinal”.
Penso se meus arroubos são sobre-humanos, o vagão já cheio, meus olhos já vermelhos enxergam em raio-x a alma de todos que se apinham à minha frente, como se esperassem encarecidos por uma palavra de salvação. Tomo notas chacoalhando, as mãos quase escrevendo sozinhas, sou quase um psicógrafo até compreender a condição da autenticidade de um escritor. Na inspiração eu me lembro de Bach, que se emocionava também enquanto rabiscava as composições que Deus mandava para ele.
Tomo as costas dos meus livros de medicina ayurvédica, para onde, meio canhestro, garrancho não uma, mas várias escritas rápidas que dali para frente vão pontuar meu coração. Vão me acompanhar do vagão em diante, como se todas as histórias fossem uma, como se ligassem os quarteirões e os bairros numa única caminhada, que não troquei pelo táxi por amor à contemplação. Escreveria um romance inteiro sobre a viagem, quadra a quadra da Paulista ao Itaim, descendo volta e meia a mochila das costas para tornar a escrever as belezas que eu via, que muita gente morre e não vê.
Escreveria as minhas subidas e descidas, as almas novas que cruzaram o meu caminho, as caras novas que eu tive para contar, mesmo acordando no meio da noite. Escreveria nos livros enquanto houvesse espaço, para depois escrever pelo corpo e pelas calçadas, incontinente como o Marquês de Sade. Traria à vida os vilões do arrebato: que tomassem ônibus públicos de assalto para levar para casa os que se amontoavam nos pontos, que plantassem no coração da senhora a rosa que ela levava nas mãos quando se despedia de alguém. Passaria em revista o meu trajeto, separando meus capítulos por quarteirões, visões ou paradas, apenas para registrar que jamais será o mesmo de novo.
Traria ao meu personagem o poder da consciência, para que enxergasse algo mais pelo percurso até se tornar um menino de verdade. Contaria o segredo de sentir o mundo diferente, algo mais que o exercício de mostrar ao mestre que aprender com ele valeu a pena. As suas lições merecem mais do que sobreviver na minha lembrança por apenas oito encontros. Merecem a minha carinhosa homenagem.

Poesia, doce poesia

Poesia, doce poesia. Valsa de cores, som e beleza. Doce sonata de pingos finos de chuva na manhã com sol, que mais brincam de cair, do que caem. Poesia. Doce punhado de azul celeste, que se acinzenta quando sou eu quem te pinta de triste. Pois tu és triste, ó estrofe, mas não disseste a todos, só a mim. Doce corte no peito que me põe retirado, eu e as minhas mágoas, feito linha e agulha, feito mulher cerzideira, que junta dor e ternura na mesma laçada. Mas doce é o que me provocas, o sentido que me reverberas como um eco de imagens que se desterram das cavernas. Tu me provocas, mas te rimo de novo por reflexivo que me fazes, suas radiantes pinceladas nas campinas, seus sombrios pendores nas depressões. Tu me provocas e me afasto de novo, como se o resto do mundo fosse também poesia: minhas raivas me esquentam, mas prefiro dizer que é culpa do sol a pino; minhas tristezas me cortam, mas os poetas tem mesmo as suas almas à mostra. Tu me provocas, mas te insisto mesmo assim, com meus escrúpulos ou na falta deles, pois tu és móvel como a imagem de Narciso à beira do lago, a quem eu me inspiro para te decifrar: a tua beleza é só minha. Faz-me em pedaços, eu permito; faz-me mosaico com as tuas formas, soma-me ao estribilho passado, combina-me ao verso todo, revira-me de um sentido que, mesmo que eu queira, inexiste.

Mergulho


Nadar é uma das minhas grandes paixões. É como se eu voltasse a ser feto, rodeado de calor e aconchego mesmo quando as águas das piscinas estão agitadas e frias. Lá me sinto em casa e cercado de vida, mesmo nadando sozinho. Lá não tenho os pés no chão nem fico duro e preso como um poste de concreto. Lá preciso de movimento; minhas pernas e meus braços são motores e turbinas como barcos que não podem parar, senão afundam. Vou rápido como um caracol, que carrega a sua casa nas costas; basta para mim que vá em frente, levando comigo os meus desígnios sem pestanejos. Nas águas deixo dores e problemas, que se dissolvem como o pó que vira barro no fundo do mar. Vejo um cardume colorido, como se mergulhasse em outro mundo; vejo sereias e flores marinhas, porque lá é tão mais bonito. Nado rente às algas e às pedras, onde flutuam também as minhas ideias e os meus pensamentos. Meu corpo e minha mente me carregam como se a água e eu fôssemos um só. Viro o meu rosto e vejo num átimo o sol estendido lá em cima, por depois dos meus óculos, inocente como uma bola de plástico. Consigo avançar mesmo que não veja adiante, pois sei que ninguém invade a minha raia. Sou um peixe num mundo de ladrilhos alinhados, pelos lados dos quais entram e saem águas claras e límpidas, por sobre onde bóia um barco sozinho, cujos braços de madeira foram esquecidos por alguém. Lá fora o céu está azul, ao que se passa um tropel de gaivotas bem formadas, as mais novas primeiro, as mais velhas depois. À minha frente abro espaço não com asas, nem com força, mas com jeito; e as águas é que me levam, mansas, ondulantes, a caminho do horizonte.

Quero o que?

Quero o que? O sol luminoso das manhãs, sob o qual minhas ideias se iluminam ou quero a doce garoa da tarde, que me flutua como um avião de papel? Quero o vento que varre o pó amontoado ou quero a brisa que sopra breve enquanto caminho na praia? Quero as ondas violentas rebentando nas pedras ou o suave vai-e-vem das marolas à beira-mar? Quero a areia fofa e quente do verão, para que os meus passos sejam ágeis e céleres, ou o chão alagadiço dos pântanos, para que o meu ritmo seja denso e vagaroso?
Quero chegar a tempo e ter uma vida pontual ou dar certo, mesmo que meu próprio compasso me atrase? Mais vale a minha inspiração ou a agenda que eu carrego? Quero o que? O dia apinhado de compromissos ou o dia livre para marchetear meu espírito? Vale mais banhar a alma de tempestade e bonança ou deita-la confortável na rede? Quero o sono dos justos ou a noite sobre as estrelas cadentes, onde nascem os meus pedidos? Quero o céu luminoso da lua ou obscuro do eclipse, sem o que a vida é um engodo?
Quero o que? O faz-de-conta da fantasia ou as notícias sangrentas dos jornais, sem as quais a concorrência me leva? Quero ser competitivo no mercado ou doar meus conhecimentos à humanidade, para que todos tenham o que eu tenho? Quero vender as minhas ideias, como bom comerciante, ou doá-las à rosa, como ela me doa o seu perfume? Quero, sobretudo, deixar que o meu Universo queira a minha querença por mim.