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Serenata

de Cecília Meireles

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Yeats

O pesar do amor
de William Butler Yeats

A altercação dos pardais nos beirais,
A lua cheia redonda e o céu carregado de estrelas,
E o canto alto das folhas que permanentemente cantam,
Tinham escondido a velha e fatigante lamúria da terra.

Então chegaste com esses lábios vermelhos e pesarosos,
E contigo chegaram todas as lágrimas do mundo.
E todo o drama de seus navios nas tormentas,
E toda o drama de seus incontáveis anos.

E agora os pardais guerreando nos beirais,
A lua pálida como coalhada, as estrelas brancas no céu,
E a cantilena alta das inquietas folhas,
Estão estremecidos com a velha e fatigante lamúria da terra.

Sonho

Dever de sonhar
de Fernando Pessoa

Eu tenho uma espécie de dever,
dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espetáculo
de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espetáculo
que posso.
E, assim,
me construo a ouro e sedas,
em salas supostas,
invento palco,
cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas
e músicas invisíveis.

Da lira paulistana

Quando eu morrer
de Mário de Andrade

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Como nuvens pelo céu

Fernando Pessoa

Como nuvens pelo céu
Passam por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transforma?
Que coisa inútil me dói?

Falar é fácil

de Carlos Drummond de Andrade
Falar é completamente fácil,
quando se têm palavras em mente
que expressem sua opinião.

Difícil é expressar por gestos e atitudes
o que realmente queremos dizer,
o quanto queremos dizer,
antes que a pessoa se vá.

Uma poesia para começar o dia

Conselho
de Fernando Pessoa

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

Carpe Diem

de Walt Whitman
Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres
crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres
alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito
de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de
tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as
poesias possam mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência
continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos
converte em protagonistas de
nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa
obra continua, tu podes
trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos
sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso.
Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples,
se pode fazer poesia bela,
sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não
podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a
vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente
sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a
tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te
as experiências daqueles que
nos precederam.
Não permitas que a vida
se passe sem teres vivido...

Invictus

Por William Henley (1849-1903)

Tradução de André Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

A festa

Cais de pessoas
Caras, figuras, figurinos
Desfile de sorrisos,
Amarelos, inertes;
Multidão.
Espalhadas, jogadas, aos montes
Incessantes
Incontinentes
Intermitentes
Ordenadas em confusão.
Conversa fiada,
Cruzada
Vozes que fundem
A inocência dormindo
Roda-viva de gente,
Girando em profusão.
Adorno, criado;
Contraste
As pérolas, o longo, a gravata,
Bandejas de pompa,
Levadas sobre a mão.
Circulam, rodeiam
Estancam;
E riem, suspiram, lamentam
Sem graça aparente;
E bebem e falam e trombam,
Tantas que são.
Entreolham, medem, censuram
Cabelos, alma e cascalho,
Andam sem rumo
Despejam veneno
Vão.
Gente que anda
Títulos no peito,
Iluminados na testa:
Me olha, me beija, me explora
Convidados de mais
Conhecidos de menos
Presentes à festa
Que eu dei;
Solidão.